domingo, 13 de abril de 2014

NINFOMANIA OU SESSÃO DE TERAPIA?

Falar de sexo é, sem a menor sombra de dúvida, um fato inerente à condição humana. Todos, em algum momento da vida e em níveis diferentes, têm contato com o assunto. Nos dias de hoje, falar a respeito da sexualidade humana é um exercício tido como saudável e habitual.

Obviamente, nem todos os povos e culturas atingiram tal nível de evolução. Mas sabemos que a partir dos anos 60, quando o movimento hippie eclodiu com a sua ideologia de "paz e amor", a cultura da humanidade deu um salto como nunca antes fora visto. Nos quatro cantos do mundo, começaram a surgir movimentos de igualdade de gêneros, o empoderamento e a liberdade da mulher tomaram forma, a visão da homossexualidade como doença começava a ser desmistificada, enfim, foi uma época de grandes mudanças que refletem diretamente na forma como agimos e pensamos na atualidade.

Mas, como tudo na vida, o sexo também possui o seu lado sombrio. E como vocês devem imaginar, falar do lado "proibido" do sexo é tido como um grande tabu social. Infelizmente, mesmo com toda a liberação sexual existente no século XXI, nem todos têm o privilégio de poder discutir e pensar acerca desses temas. Esse movimento de velar as patologias sexuais pode ser um tiro no pé: tudo aquilo que é proibido causa ainda mais curiosidade. 

Aproveitando a deixa, o cineasta Lars Von Trier fez uso de tal ferramenta para dar vida ao seu último filme. Ninfomaníaca, assim como seus outros títulos, foi desenvolvido para ser um filme chocante. Com cenas de sexo explícito, sadomasoquismo, masturbação, dentre tantas outras, o filme ganhou destaque e dominou a fantasia do público exatamente por falar de algo que as pessoas não estão acostumadas: de sexo, da forma mais crua e verdadeira possível, sem pudores e sem limites.



Contudo, meus queridos leitores, engana-se quem pensa que o filme fala somente de sexo. Para aqueles poucos e sensíveis espectadores, Ninfomaníaca traz uma temática que vai muito além do que foi apresentado (e também do que foi vendido nos teasers). 

Para realizar esse post, li várias críticas e comentários sobre o filme. Na sua maioria, ele foi rotulado como "impróprio, doente, perverso, fraco (tendo menos sexo do que o esperado) e sem necessidade de existir". Sei que muitas pessoas foram ao cinema a procura de um filme pornô com enredo, assim como tantos outros o buscaram apenas para saciar sua curiosidade em relação à temática da ninfomania. Seja como for, o filme não agradou a maioria.

Que o filme não iria agradar o público, Lars já sabia. Afinal de contas, ele é co-fundador do movimento Dogma 95, que tem como objetivo a criação de um cinema mais realista e menos comercial. Em suma: Lars gosta de causar furor na sétima arte.



Muitos de vocês devem estar ansiosos à espera de uma explicação que responda o motivo de eu ter achado o filme bom. Acredito que para explicar os porquês, devo primeiramente me apresentar.

Para aqueles que não sabem, eu sou Psicóloga. Sendo assim, me considero uma curiosa de nascença, e posso afirmar que me interesso profundamente pela vida das pessoas. Como Freud pontuou em seus escritos, os profissionais dessa área são "arqueólogos da mente". Nosso dia-a-dia gira em torno do conhecimento das pessoas, para que tanto nós quanto elas possamos entrar em sintonia com tudo aquilo que traz harmonia para nossas vidas.

Por atuar em uma área na qual a principal característica é o fascínio pelo outro, torna-se impossível não me interessar também por vidas fictícias. Estudar e compreender a vida de personagens do cinema e da literatura é um hobby muito prazeroso, bem como um "pseudo-treinamento" muito eficaz. 

Além disso, para aqueles que viram o filme e que possuem conhecimento da dinâmica de uma psicoterapia na linha Psicanalítica, fica difícil não identificar Joe no papel de analisanda (exercitando sua associação livre) e Seligman no papel de terapeuta (dando significado para tudo aquilo que sua paciente traz).

Joe e Seligman: alusão a uma sessão de terapia?

Não posso negar, todavia, que o filme faz uma certa apelação para o tema. Quando fui ao cinema ver o título, que foi dividido em dois volumes de duas horas cada, eu sabia que me dirigia a uma sessão de desconforto visual e psicológico. E não posso negar que fui com um certo receio do que estaria por vir. Até hoje não me recuperei de algumas cenas escrotas do filme Anticristo.

Confesso que esse filme também me fez mal. Não tem como assistirmos quatro horas de uma história de dor, arrependimentos e insatisfações, sem ao menos ficar um pouco abalado. Porém, ao contrário do que eu esperava, ele também eliciou muitos momentos de discussão e de ponderações.

No fim das contas, Ninfomaníaca é um filme que possibilita uma análise extensa do tema sexualidade. Se ele traz o assunto de forma correta, talvez não muito. Mas ele ao menos teve a oportunidade de mostrar o lado atroz que está por trás de qualquer transtorno psicológico. Temos como protagonista uma mulher que, se examinada sem o devido conhecimento, não passa de uma "pervertida sexual". Na realidade, Joe traz consigo um vazio existencial muito profundo, sendo a mola propulsora para suas perversões.

Lars quis vender um filme sobre as aventuras sexuais de uma mulher ninfomaníaca. Acabou que ele deu ao público uma história muito mais intensa: a de uma mulher que sofre de um transtorno sério, avassalador e extremamente doloroso (em todos os sentidos).

domingo, 26 de dezembro de 2010

AS ESCOLHAS DE SOFIA

Como seria a nossa vida se, antes de qualquer decisão, pudéssemos saber quais os resultados que teríamos após a nossa eleição? E se pudéssemos experimentar e viver cada uma das alternativas, antes mesmo de elas acontecerem? Ou ainda melhor, e se tivéssemos a oportunidade de voltar no tempo após uma escolha errada? Acredito que a vida de muitas pessoas seria diferente, e inclusive me atrevo a dizer, um tanto perfeita. Quem não gostaria de poder sempre tomar os caminhos certos da vida? Viver somente experiências positivas, e ser feliz o tempo inteiro? Com certeza, eu me incluiria nesse grupo.

Mas, e quais seriam as consequências que essa "pequena vantagem" traria para as nossas vidas? Será que seríamos pessoas felizes ou apenas seres frustrados e estressados, sempre em busca de respostas para nossas indecisões? É esse, dentre muitos outros assuntos, que trata o filme Sr. Ninguém.


Imaginem um mundo perfeito. Um mundo onde as pessoas não envelhecem, não precisam mais pensar em reprodução, e onde tudo que se faz está relacionado ao prazer e a felicidade. Não existe mais a violência, e não há mais a preocupação. Pessoas comuns vivendo uma vida normal. Mas, e se alguém dentre essas pessoas não for assim? E se essa pessoa for de outra época? De uma época onde o sentimento era, acima de tudo, o valor que mais se prezava. Que impacto essa pessoa causaria na vida dos demais? Ela seria amada? Odiada? Invejada? Ou ela, aos poucos, iria sumindo e se apagando diante de tamanho choque cultural?

Sr. Ninguém é um filme que traz como trama principal a vida de Nemo Nobody (ligando a tecla SAP: Nemo Ninguém), um senhor de 120 anos, o último mortal vivendo dentre uma nova geração de pessoas imortais. Como um legítimo ser humano, ele não é perfeito. Entre falhas de memória e mistura de informações sobre a sua vida, Nemo vive seus últimos dias sendo astro principal de um programa de televisão. Apesar de toda essa confusão, ele é tido como um "patrimônio histórico" e torna-se motivo de interesse público. Um jornalista, ao investigar a sua vida, acaba trazendo à tona a verdade que está por trás das suas confusas e estranhas lembranças.


A indecisão é, com certeza, uma grande causa de estresse na vida do ser humano. Quem não lembra de ter passado noites em claro antes de ter de tomar uma decisão importante na vida? Acabo ou não meu namoro? Aceito ou não aquela oferta de emprego? Viajo ou faço aquele curso? Vivemos, diariamente, cercados por situações que requerem soluções dicotômicas. E essas soluções são, na sua maioria, simbólicas ou meramente importantes. De qualquer forma, todas as decisões ajudam na formação do nosso caráter. É por termos que abdicar de algo que criamos a capacidade de enfrentar a perda. É através das más escolhas que conseguimos lidar com a derrota, fundando assim um mecanismo importantíssimo para as nossas vidas: a superação.


Sendo assim, as incertezas da vida são essenciais para a nossa evolução. Claro que ter uma vida perfeita e sem sofrimentos é uma ideia tentadora; mas ao mesmo tempo, nossas vidas seriam sintéticas e artificiais. As dificuldades, as derrotas, as conquistas e as aprendizagens fazem parte da nossa existência. Escolher previamente o melhor caminho a se seguir é, sem dúvida, algo interessante; mas a certeza das decisões apagaria uma parte importante da nossa caminhada: a possibilidade de cair, levantar e aprender com os tropeços da vida.

Feliz Natal e um maravilhoso 2011 à todos.

domingo, 17 de outubro de 2010

A GRAVIDADE DA INSANIDADE

Hello people, I'm back (Olá pessoas, estou de volta).

Não vou começar uma postagem falando, mais uma vez, que eu desapareci. Acho que todo mundo já conseguiu captar que, quando eu não posto aqui, é porque algo realmente importante ocupou minha vida "não-virtual". Sendo assim, me sinto livre para começar o texto de hoje.

Acabei de assistir ao filme "Ilha do Medo", e devo admitir que fiquei um pouco decepcionada. Não tão decepcionada ao ponto de detestar o filme (caso contrário, eu não estaria aqui escrevendo sobre ele), mas creio que me fizeram uma propaganda enganosa da história e esperei mais do que recebi em troca. Enfim, gostos à parte, consegui captar alguns aspectos legais para discutirmos.

Primeiramente, digo que eu gostei do fato de o filme tratar de assuntos psicológicos e de transtornos mentais. Apesar de ser meio suspeita para falar disso, esse foi o único aspecto que realmente me chamou a atenção. Não irei estragar a história para quem não viu, mas digo que o filme inteiro tu fica pensando "meo deos, o que tá acontecendo, ele tá louco ou eu que tô pirando vendo isso?". Ok, o filme não é tão louco quanto "A Origem", mas juro que chega em um ponto do filme que começamos a pensar que ficaremos loucos com tanta informação pirada.

"O que aconteceu com o paciente 67?"

Uma coisa que eu gosto de fazer é prestar a atenção em frases interessantes nos filmes, e analisá-las de um modo mais profundo. Nesse filme, uma frase dita pelo Leo DiCaprio me chamou muito  atenção. Falando a cerca da loucura, ele disse "O que é pior, viver como um monstro ou morrer como um homem bom?". Depois de ouvir a frase, comecei a pensar na sua indagação.

Não podemos discordar que viver como um monstro é horrível. Estudando isso diariamente, eu consigo visualizar muito bem como é viver 24h na loucura. É uma vida sofrida, uma vida caótica, uma vida sem futuro. Mas pior que se viver na insanidade é saber que se é louco, e perceber que nada que se faça irá melhorar isso. Portanto, viver como um monstro é sim uma grande bosta.

Entretanto, morrer como um homem bom também é uma desvantagem. Eu, assim como Maslow, tenho vontade de mudar o mundo para melhor. Tento fazer minha parte, mesmo que as vezes de forma diminuta ou tendo pequenas recaídas (afinal, sou uma humana errante). E é MUITO frustrante quando se vê que as coisas estão muito loucas e sem sentido, e que a vida é uma viagem insana ao "País das Maravilhas". Portanto, passar a vida sendo bom e almejando a melhora das pessoas, e depois morrer sem alcançar o seu objetivo, é uma grandessísima porcaria. Mas o lado bom disso é que, pelo menos, morre-se com a consciência limpa e com um pouco de dignidade.


Queridos leitores, eu não quero assustar vocês com essa notícia, mas uma coisa todos precisam saber: é muito fácil ficar insano. Qualquer acontecimento, qualquer pequeno detalhe na vida pode ser desencadeador da loucura. É claro que muitos fatores também estão associados, como a genética (pré-disposição) e as vivências pessoais. Mas, enfim, quando se tem tudo isso, uma pequena gota é o suficiente para transbordar o copo. E eu acho que uma das grandes sacadas do filme foi essa de mostrar a fragilidade do ser humano e como nós somos friamente conduzidos ao nosso destino fatal.

Hoje em dia, o ser humano leva uma vida muito corrida e preocupada. Estamos sempre em busca de "algo mais" (e se perguntarmos para as pessoas o que elas buscam, mais de 90% não saberá responder), e isso acaba nos deixando sempre no limite da vida. Estamos sempre estressados, e as exigências de que tudo seja "para ontem" nos levam a uma caótica existência. Desse modo, a loucura vira um fator muito presente no nosso dia-a-dia. Cada vez mais as pessoas estão com medo, e cada vez mais as pessoas buscam ajuda de psicólogos para conseguirem lidar com a vida.

E isso é triste? Na minha opinião, a busca por ajuda e compreensão é um movimento saudável do ser humano - até porque a pessoa não precisa ter uma patologia para procurar terapia. Todavia, cada vez mais aumenta a busca de terapia devido a uma ansiedade ou a um transtorno de humor. E isso, pessoas queridas, é triste sim, pois mostra como o ser humano atual carece de saúde mental. Graças a Deus, existem os psicólogos e psiquiatras para ajudar as pessoas perdidas e com problemas na vida. Não querendo me gabar, mas acho que somos pessoas maravilhosas e extremamente altruístas.

Como diria o sábio Coringa, do filme Batman, "A loucura é como a gravidade: só precisa de um empurrão".